Cleópatra quase ganhou um épico de Martin Scorsese com Angelina Jolie, mas uma crise na Sony mudou o destino do projeto.
- O filme que quase saiu do papiro
- A Entrevista e o hacker no centro da crise
- A polêmica que atingiu Angelina Jolie
- Um projeto que merecia outra chance?
O filme que quase saiu do papiro
Martin Scorsese contou que o projeto de Cleópatra com Angelina Jolie acabou prejudicado pelas consequências de uma confusão que, à primeira vista, parecia não ter nada a ver com o Egito antigo. O cineasta relembrou o caso em uma entrevista à série Crafty, do Tribeca, e associou o colapso do longa à crise que tomou conta da Sony em 2014.
A ideia era ambiciosa: Jolie interpretaria Cleópatra VII, a última soberana do Egito ptolemaico, e Scorsese descreveu o filme como uma produção ousada. O roteiro seria assinado por Eric Roth, roteirista que mais tarde colaboraria com o diretor em Assassinos da Lua das Flores.
Não era exatamente uma combinação discreta. Scorsese tem apreço por personagens complexos e figuras de poder, enquanto Jolie poderia conduzir uma história sobre uma mulher que passou séculos presa entre fatos históricos, propaganda romana e glamour de Hollywood. Dava para imaginar algo bem diferente de mais um desfile de coroas e batalhas em câmera lenta.
A Entrevista e o hacker no centro da crise
O elo improvável atende pelo nome de Seth Rogen. Em novembro de 2014, um grupo invadiu os sistemas da Sony Pictures em meio à polêmica sobre A Entrevista, comédia estrelada por Rogen e James Franco. A trama fictícia envolvia uma tentativa de assassinato do líder norte-coreano Kim Jong-un, e a produção provocou ameaças e forte pressão contra o lançamento.
O ataque não ficou restrito ao filme. Milhares de mensagens internas da empresa foram expostas, transformando conversas privadas de executivos e produtores em assunto público. Scorsese resumiu a sequência de acontecimentos como uma crise que atingiu a Columbia e acabou afetando Cleópatra. Sua fala não significa que Rogen tenha cancelado o projeto: o ator estava ligado à comédia que serviu de estopim para a invasão, não à produção histórica.
É uma daquelas histórias em que a indústria parece escrever o próprio roteiro, só que sem o cuidado de um bom roteirista. Um filme sobre uma rainha do mundo antigo ficou vulnerável a uma guerra contemporânea de estúdio, hackers e diplomacia internacional. Hollywood é capaz de transformar qualquer reunião em um crossover caótico.
A polêmica que atingiu Angelina Jolie
Entre os e-mails vazados estavam mensagens do produtor Scott Rudin para Amy Pascal, então executiva da Sony. Rudin fez comentários ofensivos sobre Jolie, chamando a atriz de mimada e questionando seu talento. A troca tornou pública uma tensão que não ajudou a imagem do projeto nem o ambiente em torno dele.
Scorsese não detalhou todos os motivos que levaram o longa a ser abandonado, então é melhor não reduzir o fim da produção a uma única mensagem ou a uma decisão isolada. O que ele relatou foi que o escândalo maior, com seus vários desdobramentos, acabou pesando sobre o destino de Cleópatra.
Esse detalhe importa. Manchetes gostam de um culpado com nome e sobrenome, mas a fala do diretor descreve uma sequência de problemas, não uma causa simples. O hack expôs bastidores, constrangeu figuras poderosas e jogou decisões de estúdio sob uma lupa que ninguém tinha pedido.
Um projeto que merecia outra chance?
A parceria entre Scorsese, Jolie e Roth continua sendo um daqueles “e se?” difíceis de ignorar. Cleópatra já foi retratada inúmeras vezes, mas a combinação poderia ter colocado o foco menos no figurino de luxo e mais na habilidade política de uma governante que precisou negociar com Roma para manter seu reino de pé.
Também não dá para afirmar que o filme seria uma obra-prima só por causa dos nomes envolvidos. Projetos promissores emperram, roteiros mudam e até grandes diretores podem errar a mão. Ainda assim, é frustrante pensar que uma ideia com esse potencial perdeu espaço no meio de uma crise corporativa que começou por causa de outra produção.
Por enquanto, o longa permanece no território dos projetos que quase existiram. E a história deixa uma ironia bem hollywoodiana: uma comédia sobre uma missão fictícia ajudou a desencadear um escândalo real, cujas ondas chegaram até a rainha mais famosa do Egito.
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