Corrida dos Bichos: futuro “mais próximo” [ENTENDA]

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Corrida dos Bichos promete uma distopia que parece invenção, mas o elenco jura que é “mais próximo do que parece”. E agora tá tudo fazendo sentido.

[ENTENDA] Corrida dos Bichos usa distopia para falar de desigualdade hoje

Se você achou que Corrida dos Bichos era só mais um blockbuster brasileiro com visual de “amanhã”, calma. No papo com Bruno Gagliasso, Isis Valverde e o diretor Fernando Meirelles, a ideia central é clara: o filme vende futuro, mas discute o presente com um soco bem na boca do estômago.

O ponto é que o universo da trama nasce de um cenário distópico do Rio de Janeiro com eventos climáticos e uma desigualdade cada vez mais crua. Só que a sensação que fica é a de que a história não está tão longe quanto parece. Tipo: “a ficção só adiantou uns passos”.

Por que isso é “presente”, não futuro

Meirelles e o elenco batem na mesma tecla: não é uma previsão cinematográfica distante. Ele descreve um futuro em que os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres, com a cidade mudando de tamanho, ruas mais vazias e uma população menor no mapa.

Mas aí vem a virada nerd e cruel: o jogo do bicho não some. Ele se adapta. E vira uma nova modalidade de disputa, com uma lógica que lembra entretenimento, só que trocando o “sorteio” por sobrevivência. Em outras palavras: o filme usa fantasia para mostrar algo que já existe em forma de desvio moral.

Gagliasso resume do jeito direto: mesmo com tecnologia e um universo inventado, o filme é “muito mais real” do que parece. Para ele, é crítica certeira ao que a gente já faz consigo mesmo hoje.

Como funciona a corrida do jogo do bicho futurista

A dinâmica é o tipo de conceito que dá vontade de assistir e, ao mesmo tempo, de reclamar com a vida. Em Corrida dos Bichos, os participantes são corredores da periferia, cada um representando um “bicho” com máscaras produzidas por eles mesmos.

Eles são largados em pontos aleatórios da cidade e precisam chegar ao lugar final. Só que se encontrarem durante o percurso, pode rolar tudo: bater, matar, eliminar. Vale qualquer coisa, porque o objetivo é um só: sobreviver. E, na camada emocional, tem o “motivo”: familiares em risco.

Pra piorar (ou melhor, pra narrativa funcionar), eles não sabem o local exato onde foram deixados. Correm com um fone dentro da máscara e recebem pistas que guiam a rota até o objetivo. Ou seja: é videogame de gente real, sem respawn e sem misericórdia.

Classe social em formato de game

A parte mais “isso é Brasil demais” para (tentar) engolir é o contraste. Do outro lado, existe um local sofisticado, comandado por privilegiados que apostam nos bichos em tempo real.

Os participantes são acompanhados por drone e por uma moto com câmera. Enquanto eles correm por ruas verdadeiras, os apostadores ficam com visão de cima, tipo sala de controle. E o rolê vira instrução estratégica, com decisões do tipo “vira aqui”, “desvia do tigre”, “acaba com o outro”.

Esse mecanismo é o núcleo da crítica: o filme trata desigualdade como se fosse mecânica de gameplay. Não é só violência pela violência. É um sistema. E ele tem audiência, tem apadrinhados e tem poder delegado.

A tecnologia que vira coleira

A tecnologia em Corrida dos Bichos não aparece como gadget bonitinho. Ela vira controle, vigilância e empurrão moral. O drone não é só câmera. É ferramenta de direcionamento. A moto não é só mobilidade. É possibilidade de captura do “resultado”.

E o gancho que o filme puxa com força é que isso conversa com o que a gente naturaliza. Meirelles chama atenção para como a distopia econômica já estaria perto: a pessoa segue fazendo “horas e mais horas” para fechar conta, como quem aprendeu a aceitar o absurdo como rotina.

Se você quer entender o contexto do diretor, vale olhar a trajetória dele em Fernando Meirelles, que ajuda a conectar por que ele gosta tanto dessa mistura de cinema com realidade social.

Você aceitaria “apostas” sobre a vida de alguém?

Quando Bruno Gagliasso e Isis Valverde falam que a história não é tão futura, o recado fica meio assustador. Porque Corrida dos Bichos faz uma pergunta direta: pelo que você lutaria? O que você desejaria? E até onde você iria quando o mundo te colocasse contra a parede.

E aí, sério: você se vê como corredor, como apostador ou como quem finge que não viu?

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