Digger, novo filme de Alejandro González Iñárritu com Tom Cruise, dividiu a crítica. O diretor diz que essa reação não foi surpresa.
- Uma divisão sem surpresa
- O risco de provocar conversa
- “O desastre somos nós”
- A bilheteria também fala
Uma divisão sem surpresa
Tem filme que chega tentando agradar todo mundo. Digger, pelo que Iñárritu contou ao The New York Times, não parece estar nessa missão. O diretor recebeu as críticas mistas sem espanto e afirmou que prefere uma reação polarizada a uma recepção morna. É uma escolha compreensível: ser discutido costuma ser mais interessante do que passar pela temporada sem deixar marca.
Isso não significa que ele considere o longa impecável. Iñárritu reconheceu que o filme não é perfeito, mas defendeu a vontade de assumir riscos. E, convenhamos, um projeto incomum com Tom Cruise no centro já chama atenção por si só. A expectativa de ver o astro em mais uma aventura de ação pode bater de frente com uma proposta que não segue exatamente o caminho mais familiar.
O público e a crítica, aliás, estão em páginas diferentes. No Rotten Tomatoes, Digger aparece com 51% de aprovação dos críticos e 71% do público. No Metacritic, a diferença também existe: 46 pontos entre críticos e 66 entre usuários. Não é uma unanimidade, mas também não é aquele cenário de sala vazia e tomates voando.
O risco de provocar conversa
Para Iñárritu, a função de um filme pode ser justamente abrir uma conversa. Ele descreveu Digger como provocador e incomum, e disse gostar de obras que tentam comunicar algo de um jeito diferente. É uma defesa do cinema que cutuca em vez de entregar tudo mastigado, embora isso também possa frustrar quem espera uma narrativa mais tradicional.
O diretor reconheceu que há espectadores que preferem mais clareza e segurança na história, e considerou essa reação legítima. Essa parte importa: gostar de uma obra desafiadora não transforma automaticamente quem não gostou em alguém que “não entendeu”. Às vezes, o filme quer bagunçar o mapa e o público simplesmente preferia chegar ao destino sem precisar de uma bússola e três teorias no Reddit.
Essa divisão pode ser um sinal de que o longa assumiu uma identidade própria, mas não garante que a experiência funcione para todo mundo. Uma ideia ousada pode render um filme fascinante ou uma sessão em que a gente olha para o relógio mais do que gostaria. A provocação, sozinha, não é passe livre: ainda precisa encontrar forma e ritmo na tela.
“O desastre somos nós”
Ao explicar o que o filme representa, Iñárritu o descreveu como uma história de desastre em que a humanidade é o próprio desastre. Na visão do cineasta, o mundo é extraordinário e cheio de recursos, mas o equilíbrio do ecossistema é delicado. A ideia, segundo ele, é que as pessoas consigam se reunir e compreender a realidade em que vivem.
Há uma nota de esperança nessa fala, ainda que venha embrulhada em preocupação. Não se trata de dizer que tudo vai ficar bem por mágica, mas de imaginar que reconhecer o problema e compartilhar uma realidade comum pode ser um começo. É um tema ambicioso, e combina com a intenção de fazer um filme que provoque debate, não apenas aplausos no fim da sessão.
A bilheteria também fala
O desempenho comercial, por enquanto, é outro ponto de atenção. Digger arrecadou US$ 8 milhões em seu fim de semana de estreia nos Estados Unidos, a menor abertura doméstica de um filme estrelado por Tom Cruise desde Leões e Cordeiros, de 2007. O resultado ficou atrás de Verity, de Colleen Hoover, do terceiro fim de semana de Resident Evil e do segundo de Coração Selvagem, com Brad Pitt.
Então temos duas conversas acontecendo ao mesmo tempo: uma sobre a recepção dividida e outra sobre a dificuldade de transformar curiosidade em ingresso vendido. Iñárritu já esperava que o filme não agradasse a todos, mas a bilheteria mostra que ousadia e estrela famosa não são garantia de estreia gigantesca. Agora, resta ver se o boca a boca dá fôlego a Digger ou se a polarização fica mais forte nas discussões do que nas salas de cinema.
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