O filme feito por IA que prometia testar o futuro do cinema chegou às salas chinesas e encontrou pouco público.
- Um teste de bilheteria que começou mal
- O que conta Sanxingdui: Future Past
- A tecnologia não segurou o ingresso
- O futuro não foi cancelado
Um teste de bilheteria que começou mal
Sanxingdui: Future Past arrecadou cerca de US$ 198 mil na semana de estreia na China. O número chama atenção principalmente porque o longa teve mais de 10 mil sessões no dia de lançamento. Em outras palavras: havia espaço na programação, mas o público não correu para ocupá-lo.
A produção custou 10 milhões de yuans, aproximadamente US$ 1,5 milhão. As vendas iniciais de ingressos cobriram apenas 12% desse valor, um começo bem distante do necessário para transformar a experiência em sucesso comercial. Não é o tipo de resultado que faz os estúdios gritarem “luz verde” para uma sequência.
O desempenho é relevante porque o filme é apontado como o primeiro longa gerado integralmente por inteligência artificial a receber uma estreia ampla, com bilheteria registrada em um grande mercado. Não é apenas uma curiosidade tecnológica: é um teste real diante de espectadores que pagaram para assistir.
O que conta Sanxingdui: Future Past
Com 100 minutos, o thriller de ficção científica se inspira nas descobertas arqueológicas da antiga civilização Sanxingdui. A história salta para um futuro em que uma inteligência artificial superinteligente se espalha pelo planeta e a humanidade entrega o controle aos algoritmos. O resultado, claro, é uma crise global. Até a ficção científica já sabe que terceirizar todas as decisões para uma máquina costuma dar ruim.
A premissa tem potencial para render imagens grandiosas e discussões sobre poder, autonomia e tecnologia. Mas uma ideia interessante não carrega um filme inteiro sozinha. Para funcionar, ela precisa de personagens que prendam a atenção, ritmo e escolhas visuais que tenham intenção. O rótulo “feito por IA” pode atrair curiosidade na primeira conversa; dificilmente sustenta o interesse por 100 minutos se a experiência não convencer.
A tecnologia não segurou o ingresso
O CEO da produtora Bona Film Group, Jiang Defu, defendeu o valor pioneiro do projeto. A equipe foi, segundo ele, a primeira a tentar esse caminho, conseguir licença para exibição nos cinemas e encarar a avaliação do público. É justo reconhecer o tamanho do desafio. Abrir uma trilha nova na indústria não é pouca coisa, mesmo quando a bilheteria não acompanha.
Mas a novidade não funciona como passe livre para a recepção. Um espectador ouvido pela imprensa chinesa avaliou que a qualidade ainda fica abaixo da produção humana. É uma crítica direta, e também um lembrete importante: para quem está sentado na sala, o processo de criação importa menos do que o que aparece na tela.
Isso não significa que a inteligência artificial não possa ser útil no cinema. Ela pode entrar em etapas específicas, ajudar a testar ideias ou acelerar tarefas. Só que existe uma diferença entre usar uma ferramenta e fazer dela o principal argumento de venda. Se o público sente que o filme está mais interessado em provar que foi gerado por IA do que em contar uma boa história, a tecnologia vira atração de bastidor, não motivo para comprar ingresso.
O futuro não foi cancelado
Um fracasso não encerra a conversa, especialmente porque a IA já está presente em outras áreas do audiovisual chinês. Segundo os dados divulgados sobre o mercado local, 95% dos microdramas, produções curtas feitas para consumo online, são gerados por inteligência artificial. Formatos rápidos e baratos podem encontrar um público e uma lógica de produção diferentes da experiência de ir ao cinema.
Também houve lançamentos limitados de longas com IA, como o musical indiano Love You, de 2025, e Pirate Queen: Zheng Yi Sao, da Malásia, previsto para 2026. Nos Estados Unidos, Gods Don’t Give Gifts tem lançamento anunciado para 4 de dezembro. Cada projeto vai ajudar a entender onde essa tecnologia funciona e o que ainda precisa amadurecer.
Por enquanto, Sanxingdui: Future Past deixa uma lição menos apocalíptica do que sua trama: inovar chama atenção, mas não substitui roteiro, emoção e acabamento. A IA pode mudar a produção de filmes, sim. Só não ganhou o direito de pular a parte em que precisa fazer um filme que as pessoas queiram ver.
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