Franz Kafka não aprova: e sinceramente, nem eu. Um simulador de namoro japonês decidiu transformar “match fofo” em “barata em cena”, com aquele clima de terror existencial que só a literatura costuma ter.
- A premissa que faz Kafka revirar na tumba
- Gokigen Lovely Days e o romance com controle deslizante
- Cenas de transformação: do flerte ao inseticida
- Baratas com nome, biografia e uma sátira bem ácida
- Afinal, quem rejeita: você ou o seu bom senso?
A premissa que faz Kafka revirar na tumba
Num universo onde jogos de simulação costumam ir de “vizinho fofo” até “príncipe encantado”, a Earth Corporation resolveu fazer o caminho contrário. O título chama atenção logo de cara, porque é um dating sim promocional que coloca quatro rapazes como interesses amorosos, mas com um twist: eles são baratas.
O que poderia ser só estranho vira uma pegada quase kafkiana quando você entende o ritmo das interações. Você joga como uma protagonista recém-chegada em Tóquio, trabalhando na empresa, tentando sobreviver ao caos do cotidiano e a uma chuva de junho que funciona como gatilho narrativo. E quando você pensa que é só mais um encontro no cenário urbano, o jogo sussurra: “ops, isso aqui tem regras próprias, ok?”
Gokigen Lovely Days e o romance com controle deslizante
O começo é direto e tem aviso de conteúdo “chocante”, do tipo que deixa claro que não é para os fracos de coração. Depois disso, a mecânica principal gira em torno de escolhas simples: se você se abriga em um parque ou entra num café, você encontra um dos quatro personagens. Dá para reconhecer o DNA de jogos voltados ao público feminino com clichês de simulação de namoro, mas com uma reviravolta que transforma tudo em absurdo biológico.
No café, por exemplo, você esbarra em personagens que parecem saídos de anime boyish, só que o comportamento vai ficando cada vez mais… errático. Já no parque, surgem outros dois interesses com vibe mais “romântica” ou “cavalheiresca”, incluindo um que ajuda com os documentos e outro que aparece com ações meio exageradas. Em paralelo, o jogo já entrega sinais de alerta: o grupo some quando há barulho ou luz, como se a própria narrativa pedisse desculpa e, ao mesmo tempo, insistisse no terror.
E aqui entra um detalhe que deixa tudo mais engraçado e inquietante: os personagens são dublados por Yuki Kaji. Se Attack on Titan te treinou para reconhecer voz sedutora com drama suficiente, você entende por que parte do público ficou dividida entre achar “incrível” e achar “isso deveria ser crime”.
Cenas de transformação: do flerte ao inseticida
O jogo decide escalar a estranheza no final de semana. Depois de trocar mensagens com o interesse amoroso, a pessoa aparece do nada no seu apartamento e oferece um “presente” especial. A partir daí, rola uma revelação: transformações em forma musculosa de barata ao som de uma música romântica.
O melhor e pior ao mesmo tempo é a criatividade dos cenários. A sua barata pode “sair” de lugares improváveis, como lavanderia, ar-condicionado, exaustor da cozinha, banheiro ou até vaso de plantas. Ou seja: nenhuma área da casa está segura. O tom não é só de susto, mas de confirmação de que o jogo quer te deixar desconfortável sem perder a estética de simulação romântica.
Quando a cena termina, o jogo corta para uma realidade bem sombria: uma imagem do spray inseticida para baratas, com som de pulverização. É como se o título dissesse que o romance pode até começar bonito, mas a vida real responde com química e decisão.
Baratas com nome, biografia e uma sátira bem ácida
Para completar o pacote, cada interesse amoroso tem o nome de uma espécie real de barata encontrada no Japão, e as biografias trazem dados como “altura”, localização e gostos que lembram insetos de verdade. É aquela sátira que parece boba no primeiro segundo, mas vira um comentário sobre como a cultura pop lida com fantasia, gênero, e até como a gente romantiza coisas sem olhar para o contexto.
Tem também o trocadilho com o Dia dos Insetos no Japão. A data 6 de abril vira referência aos números “mu” e “shi”, e a palavra “mushi”, que significa inseto. Aí pronto: o jogo coloca o calendário como ingrediente de lore. E, no final, a impressão que fica é bem simples: Kafka não aprova porque o absurdo aqui não é só piada, é mecanismo narrativo.
Para entender melhor o contexto e como esse tipo de conteúdo aparece na indústria japonesa, faz sentido olhar a cobertura do ITmedia, que relatou a chegada do Gokigen Lovely Days e a origem da campanha.
Vai dar match ou vai dar adeus para o caos?
O ponto final é quase inevitável: você rejeita o interesse insetoide com a sensação de que foi ludibriado por estética, voz e timing de história. O jogo tenta vender o romance, mas entrega uma lógica de perseguição típica de quem já viu drama demais e não confia em coincidência.
No fim das contas, Franz Kafka não aprova, mas o mundo geek talvez até goste: é um lembrete de que, às vezes, a sátira funciona quando mistura terror, romance e um “por que isso existe?” que viraliza rápido. E se você estiver procurando um dating sim diferente de tudo, esse é literalmente o tipo de encontro que deixa o coração acelerado e a cabeça perguntando: “tá, e agora, o que eu faço com essa informação?”
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