Monstro: A História de Lizzie Borden e o peso da ficção

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Monstro: A História de Lizzie Borden transforma um crime sem resposta definitiva em um drama sombrio que prefere imaginar motivos a ficar só nos fatos.

Um crime que ainda intriga

Em 1892, Andrew Borden e sua esposa, Abby, foram assassinados em casa, na cidade de Fall River, Massachusetts. A filha dele, Lizzie, foi acusada, mas acabou absolvida no julgamento do ano seguinte. E é aí que mora o gancho: o caso ficou cercado por suspeitas, versões conflitantes e perguntas que seguem sem uma resposta definitiva.

A temporada da antologia Monster, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, parte desse mistério para construir seu próprio retrato de Lizzie. Em vez de funcionar como uma reconstituição rigorosa, a série combina fatos conhecidos com hipóteses e invenções dramáticas. Se você procura um documentário com lupa e linha do tempo, melhor ajustar a expectativa antes de dar o play.

A família por trás do machado

A narrativa volta aos dias anteriores ao crime e concentra boa parte de sua energia na casa dos Borden. A relação de Lizzie com o pai e, principalmente, com a madrasta Abby aparece como um ambiente de controle, rejeição e tensão acumulada. Rebecca Hall dá vida a Abby, enquanto Ella Beatty interpreta Lizzie, cercada por uma família na qual qualquer conversa parece prestes a virar um confronto.

A série também apresenta a hipótese de que a herança de Andrew teria alimentado o ressentimento: Lizzie poderia se sentir prejudicada pela possibilidade de dividir o patrimônio com Abby. Mas hipótese não é prova, e a produção brinca justamente com esse espaço entre o que se sabe e o que se imagina. O problema é que, às vezes, ela conduz o espectador com tanta firmeza por uma versão que o mistério histórico fica em segundo plano.

Quando a ficção assume o volante

O exemplo mais ousado é o vínculo criado entre Lizzie e Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson. A série aproxima as duas mulheres em diferentes momentos da narrativa e transforma essa conexão em parte importante do percurso de Aileen. Há até situações em que ela parece conversar com Lizzie, como se a figura histórica atravessasse o tempo para acompanhá-la.

É uma escolha que pode dividir quem assiste. De um lado, essa licença cria uma ponte temática entre duas mulheres julgadas pela sociedade e cercadas por histórias de violência. De outro, a conexão é uma invenção dramática, não um fato histórico, e pode soar como um desvio para quem chegou pela promessa de acompanhar o caso Borden. A temporada fica mais interessante quando assume o absurdo da ideia do que quando parece pedir que a gente a tome como verdade.

Essa mistura de épocas e personagens também mexe com a empatia do público, especialmente em relação a Aileen. Só vale lembrar que empatia não transforma dramatização em registro fiel. A série usa figuras reais como matéria-prima para construir uma história própria, e nem sempre sinaliza com clareza onde termina a documentação e começa a imaginação.

Atuações e uma trilha que fica

O elenco é um dos motivos para continuar mesmo quando o roteiro puxa demais o fio da ficção. Ella Beatty sustenta uma Lizzie difícil de decifrar, e Vicky Krieps, como Maggie, acrescenta outra camada às relações dentro da casa. Charlie Hunnam também integra o elenco, depois de interpretar Ed Gein na temporada anterior da antologia. O resultado tem momentos de tensão e personagens que não cabem facilmente em rótulos simples.

A trilha sonora merece elogio à parte. De Cherry Bomb, do The Runaways, a Kate Bush e à releitura de I’m on Fire pelo Chromatics, as músicas ajudam a dar personalidade à série. Carnival, de Natalie Merchant, também ganha peso ao se conectar aos momentos finais de Aileen. É aquele tipo de seleção que dá vontade de pausar a tela só para conferir o nome da faixa.

Vale o play, mesmo com as liberdades?

Para quem curte true crime, terror e dramas históricos com licença artística, Monstro: A História de Lizzie Borden tem bastante coisa para discutir depois do episódio. O clima, as atuações e a trilha seguram a experiência, mesmo quando a série se afasta do terreno seguro dos fatos e começa a preencher as lacunas por conta própria.

Minha recomendação é assistir com curiosidade, mas sem confundir suspense com prova. Lizzie foi absolvida, e a produção não transforma as especulações em certezas só por colocá-las na tela. Como drama, a temporada me ganhou. Como retrato fiel de um crime real, pede um asterisco enorme. Se essa distinção não estraga sua diversão, pode separar umas noites: o machado aqui é mais uma porta de entrada para o debate do que uma resposta definitiva.

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