Profundezas: o que é real na série da Netflix?

Twitter
LinkedIn
Threads
Telegram
WhatsApp

Profundezas não conta uma história real, mas usa fatos históricos e ambientais para dar peso ao suspense.

A ficção tem raízes reais?

A minissérie da Netflix virou um fenômeno: chegou ao primeiro lugar em 80 países e ultrapassou 21 milhões de visualizações. O chamariz é fácil de entender. Uma comunidade costeira isolada, uma criatura colossal e Josh Hartnett tentando proteger a família já formam uma receita de suspense bem eficiente. Mas a história dos Penney e a cidade de Snook’s Arm são inventadas.

Isso não significa que a série tirou tudo do nada. O roteiro combina elementos de ficção científica com experiências reais de comunidades costeiras canadenses, além de preocupações atuais sobre mudanças climáticas e vida marinha. A criatura é o grande gancho, claro, mas o drama humano tem uma base histórica bem mais concreta do que parece à primeira vista.

Atenção: daqui em diante há spoilers do final de Profundezas. A revelação de que a lula não é simplesmente uma ameaça maligna muda o sentido da trama. Ela está fora de seu ambiente habitual, enquanto a comunidade enfrenta interesses que podem expulsá-la de suas casas. A série usa o suspense para esconder, por um tempo, quem realmente está colocando aquele lugar em risco.

O reassentamento que marcou comunidades

Um dos paralelos mais fortes vem dos programas de reassentamento realizados em Terra Nova e Labrador, no Canadá, entre as décadas de 1950 e 1970. O governo incentivou moradores de pequenos povoados costeiros a se mudarem para comunidades maiores. A justificativa era reduzir custos e facilitar o acesso a serviços como saúde e educação. Na prática, a mudança podia significar deixar para trás uma forma inteira de viver.

Há um detalhe que parece invenção de roteirista, mas aconteceu: algumas famílias transportaram as próprias casas em balsas para chegar ao novo destino. Não era uma mudança de bairro com caixa de papelão e caminhão alugado. Era uma tentativa de levar consigo o que fosse possível de uma vida construída junto ao mar.

Na série, a família Penney já passou por um reassentamento e teme que a comunidade seja deslocada outra vez. A trama relaciona a ameaça a uma exploração de metais preciosos. Esse plano pertence à ficção, mas o sentimento de perda e a pressão sobre vilas costeiras conversam com conflitos reais. Já as dificuldades econômicas da pesca canadense tiveram outro fator decisivo: a proibição da pesca e da comercialização do bacalhau, adotada para tentar recuperar a espécie.

Lula gigante: ciência e licença dramática

Lulas gigantes existem e podem atingir dimensões impressionantes, na faixa de 10 a 15 metros. Só que a série aumenta bastante a dose de perigo. Esses animais vivem em águas profundas, e ataques mortais perto da superfície como os mostrados na tela são altamente improváveis. Sem uma estrutura esquelética que sustente o corpo fora da água, a lula não funciona como um kaiju aquático pronto para derrubar barcos a cada aparição.

O roteiro oferece uma explicação para o comportamento da criatura: ela procura águas mais frias e profundas para se reproduzir, mas o aquecimento do oceano a empurra para regiões inadequadas. Seus ataques seriam uma reação de proteção ao saco gestacional preso no iceberg. É uma premissa de ficção científica, não um registro de comportamento real de lulas gigantes.

Ainda assim, a ideia central tem conexão com um problema verdadeiro. O aquecimento dos oceanos altera habitats e afeta espécies marinhas. A velocidade dessas mudanças pode dificultar a adaptação dos animais, especialmente daqueles que dependem de condições ambientais específicas. A série transforma esse processo complexo em uma ameaça visível, com tentáculos e trilha sonora tensa. Dramático? Sem dúvida. Literalmente científico? Não.

O monstro mais perigoso não tem tentáculos

O melhor truque de Profundezas é fazer a gente olhar para o mar quando o conflito também está em terra. A lula rende cenas de perigo e mantém o mistério andando, mas o final desloca a pergunta: quem está invadindo o espaço de quem? A criatura busca condições para sobreviver; os moradores tentam não perder suas casas e seu modo de vida.

Essa inversão dá à minissérie um pouco mais de substância do que um simples suspense com monstro. A crítica ambiental não é exatamente sutil, mas funciona porque está ligada ao destino dos personagens. Quando a pesquisadora explica que os filhotes não sobreviveriam à temperatura atual da água, a ameaça deixa de ser apenas o que a lula pode fazer com a vila. Também passa a ser o que os humanos já fizeram com o ambiente.

Então, não: Profundezas não é baseada em uma história real específica. A cidade, a família e a lula assassina são ficção. Mas o reassentamento de comunidades, as mudanças na pesca e o aquecimento dos oceanos dão à série raízes no mundo real. E, convenhamos, isso torna o monstro mais incômodo: depois que os créditos sobem, a parte fantástica vai embora. O problema ambiental, não.

Sugestão para o seu Set-up Nerd:

Encontramos produtos incríveis com desconto!

Ver livro sobre mudanças climáticas e oceanos na Amazon