Sebastián Lelio: o cineasta que marcou o Chile

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Sebastián Lelio, diretor chileno de Uma Mulher Fantástica e Gloria, morreu aos 52 anos.

A notícia que marcou o cinema chileno

O cineasta Sebastián Lelio morreu aos 52 anos em sua casa, em Las Condes, no Chile. A notícia foi confirmada por sua esposa, a atriz Amalia Kassai, que informou que a morte ocorreu por motivos de saúde. A família não divulgou mais detalhes, e vale respeitar esse limite em vez de transformar o luto em especulação.

Nascido na Argentina, em 1974, e criado no Chile, Lelio construiu uma trajetória que atravessou fronteiras sem abandonar as histórias íntimas. Seus filmes falam de pessoas tentando encontrar espaço para existir, amar e recomeçar, mesmo quando o mundo ao redor parece ter decidido quem elas deveriam ser. Não é pouca coisa para uma carreira que começou longe do circuito mais barulhento de Hollywood.

Gloria e o retrato de uma mulher sem roteiro

Foi com Gloria, lançado em 2013, que Lelio chamou atenção internacional. Interpretada por Paulina García, a protagonista é uma mulher de meia-idade que encara a solidão, os encontros e as próprias vontades sem aceitar que a vida tenha virado apenas uma lista de obrigações. O filme não tenta vendê-la como heroína perfeita. Gloria é contraditória, divertida, vulnerável e, sobretudo, dona da própria história.

Esse olhar ajuda a explicar por que o longa encontrou público para além do Chile. Lelio não trata seus personagens como exemplos de cartilha, mas como gente de verdade, com escolhas nem sempre elegantes e desejos que não desaparecem só porque a sociedade prefere ignorá-los. É um tipo de sensibilidade que pode parecer simples, mas exige bastante precisão para não escorregar no sentimentalismo fácil.

Uma Mulher Fantástica e um Oscar com significado

O reconhecimento chegou a outro patamar com Uma Mulher Fantástica, protagonizado por Daniela Vega. Em 2018, o filme levou ao Chile o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, hoje chamado de Melhor Filme Internacional. A vitória teve peso para a indústria chilena, mas o impacto do longa não cabe numa estatueta: sua história colocou a experiência de uma mulher trans no centro da conversa, sem reduzir Marina, sua protagonista, a um discurso ou a uma lição para os outros.

O filme também ampliou a visibilidade da luta da comunidade trans no Chile e ajudou a impulsionar o debate público que acompanhou a Lei de Identidade de Gênero no país. Isso não significa atribuir a uma obra o poder de mudar tudo sozinha. Significa reconhecer que cinema pode abrir portas para conversas que muita gente preferia manter do lado de fora.

De Santiago a Hollywood sem perder a assinatura

Depois do sucesso internacional, Lelio trabalhou em produções de língua inglesa sem deixar de revisitar os próprios temas. Em Desobediência (2017), Rachel Weisz e Rachel McAdams vivem uma relação atravessada por fé, desejo e normas comunitárias. Já Gloria Bell (2018), com Julianne Moore, foi uma nova versão de seu filme chileno, não uma simples cópia com outro elenco. A mudança de cenário e de intérprete colocou a personagem diante de outras nuances.

Sua filmografia inclui ainda A Sagrada Família (2005), Navidad (2009) e O Ano do Tigre (2011). Mais recentemente, dirigiu o musical A Onda (2025) e o drama O Prodígio, da Netflix. Quando morreu, trabalhava na adaptação de Poeta Chileno, romance de Alejandro Zambra que seria produzido pela Fábula. Um projeto interrompido que deixa a pergunta inevitável sobre os filmes que ainda poderiam vir.

O cinema que fica

O Ministério das Culturas, Artes e Patrimônio do Chile lamentou a morte de Lelio e destacou sua importância para o cinema do país. É uma marca grande, mas talvez o legado mais duradouro esteja na forma como seus filmes olham para personagens que tantas vezes ficam à margem: com atenção, complexidade e humanidade, nunca como pano de fundo.

Perder um cineasta aos 52 anos é perder também as histórias que ele ainda poderia contar. As que já existem, porém, continuam fazendo o que o bom cinema sabe fazer: desafiar certezas, aproximar desconhecidos e deixar uma conversa reverberando depois que a tela escurece. Para quem ainda não conhece o trabalho de Lelio, Gloria e Uma Mulher Fantástica são portas de entrada poderosas. E, neste caso, revisitar os filmes é também uma maneira honesta de lembrar quem os fez.

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