Smallville aos 25: a série que abriu caminho para heróis

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Smallville completa 25 anos mostrando que, antes da capa, havia um jovem tentando descobrir quem era.

Um super-herói sem uniforme

Em 2001, quando Smallville estreou, o universo dos super-heróis no cinema ainda estava longe de virar uma máquina de franquias interligadas. O primeiro X-Men tinha chegado aos cinemas no ano anterior, e a ideia de acompanhar vários heróis dividindo o mesmo universo ainda não era o padrão que a gente conhece hoje.

A série apostou em outra porta de entrada: em vez de começar com o Superman pronto, capa no vento e trilha épica, voltou para a adolescência de Clark Kent. Tom Welling interpretou um rapaz tentando lidar com poderes, segredos e dilemas bem terrenos, enquanto crescia em Smallville. A pergunta não era só “quando ele vai voar?”, mas também “que tipo de pessoa ele vai escolher ser?”.

Essa aposta ajudou a dar à série uma identidade própria. O herói estava ali, mas o drama vinha das relações, das escolhas e das consequências de esconder quem se é. Para mim, esse é o grande truque de Smallville: fazer a gente se importar com Clark antes de ele vestir qualquer uniforme.

A TV ainda tinha medo de gibi

Os cocriadores Alfred Gough e Miles Millar lembraram, em conversa com o TheWrap sobre os 25 anos da série, que a emissora não queria elementos que parecessem “com cara de gibi”. A orientação era evitar justamente aquilo que hoje muitos estúdios usam como chamariz: o espetáculo de superpoderes e a estética assumidamente heroica.

O contexto acabou virando combustível criativo. Sem poder depender de uma sucessão de cenas grandiosas, a série colocou o foco no personagem e nas pessoas ao redor dele. Claro, havia poderes e ameaças, mas a história gostava mesmo era de explorar amizade, família, romance e confiança. A kryptonita podia causar uma confusão da semana; o que segurava o público era ver como aquilo mexia com Clark e com quem estava perto dele.

Esse formato também abriu espaço para uma versão de Lex Luthor que não começou como o grande inimigo de Superman. Antes de a rivalidade virar inevitável, Clark e Lex foram amigos. É uma escolha que dá peso à tragédia da relação: a gente não vê apenas dois adversários, mas duas pessoas que poderiam ter seguido caminhos diferentes.

A heresia que virou identidade

Millar comentou que a distância dos criadores em relação aos quadrinhos permitiu mexer na mitologia sem tratar cada detalhe como intocável. A chuva de meteoros, a amizade entre Clark e Lex, a presença de Lana Lang e a criação de Lionel Luthor, pai de Lex, ajudaram a construir uma versão própria daquele mundo.

Essa liberdade tem um sabor especial hoje, numa época em que qualquer mudança no cânone pode virar debate de semanas. Não significa que adaptar os quadrinhos ao pé da letra seja sempre ruim. Mas Smallville lembra que uma adaptação também pode conversar com a tradição sem ficar acorrentada a ela. Às vezes, a melhor homenagem é encontrar uma pergunta nova para um personagem conhecido.

Nem toda decisão da série envelheceu com a mesma elegância, e dez temporadas inevitavelmente trouxeram altos e baixos. Ainda assim, a disposição de experimentar deu à produção um caminho que não era simplesmente repetir as histórias mais famosas do Superman.

Um legado antes do MCU

Quando Gough chama a série de uma das primeiras produções televisivas de super-heróis a investigar o personagem por trás do uniforme, ele aponta para algo que continua relevante. Smallville ajudou a provar que histórias de heróis podiam funcionar na TV sem serem apenas uma sequência de lutas ou uma versão menor do cinema.

Seu impacto não foi inventar sozinho a televisão de super-heróis, nem prever exatamente o modelo de universo compartilhado que viria depois. Foi mostrar que havia público para acompanhar personagens por anos, conhecer suas origens e ver como suas escolhas os transformavam. Hoje isso parece óbvio. Em 2001, era uma aposta bem menos garantida.

Vinte e cinco anos depois

Smallville ficou no ar por dez temporadas, de 2001 a 2011, e apresentou versões jovens de vários personagens da DC. Além de Welling, o elenco reuniu Michael Rosenbaum, Allison Mack, Kristin Kreuk, Justin Hartley e Aaron Ashmore, entre outros. Mas o que ficou não foi apenas a lista de rostos conhecidos: foi a ideia de que a jornada até se tornar um herói pode ser tão interessante quanto o momento em que ele finalmente aparece como um.

Vinte e cinco anos depois, a série continua sendo um retrato de uma fase em que a TV ainda tentava entender como contar histórias de quadrinhos sem assustar quem não lia quadrinhos. O resultado foi imperfeito, às vezes exagerado e muito próprio. E talvez seja por isso que ainda dá vontade de voltar a Smallville: ali, o Superman não era uma estátua pronta. Era um garoto tentando acertar, temporada após temporada.

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