This Is Us: por que os Pearson ainda fazem chorar

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This Is Us transformou dramas cotidianos em uma máquina de emoção que, admito, quase sempre acertava o alvo.

Um piloto que muda tudo

Quando This Is Us estreou, em 20 de setembro de 2016, parecia apresentar um drama sobre quatro pessoas que faziam aniversário no mesmo dia. Aí o episódio chegava ao fim e revelava que aquelas histórias não estavam apenas divididas por coincidência: elas faziam parte de uma mesma família, acompanhada em diferentes momentos da vida.

É uma daquelas viradas que funcionam melhor quando a gente assiste sem saber demais. O piloto não precisava de explosões, vilões mascarados ou um mistério cósmico digno de uma saga de Star Wars. Bastava juntar algumas peças e mostrar que a história era maior do que parecia. De repente, cada conversa sobre família ganhava outro peso.

Ao longo de seis temporadas e 106 episódios, a produção acompanhou os Pearson entre alegrias, perdas, conflitos e reconciliações. A estrutura passeava entre épocas e personagens sem tratar o passado como simples explicação para o presente. Para a série, as lembranças continuam vivas, meio bagunçadas e prontas para aparecer na pior hora possível. Como na vida real, só que com trilha sonora certeira.

Chorar era parte do pacote

Eu podia começar um episódio pensando “hoje vou assistir tranquilo” e terminar defendendo que o problema era a poeira da sala. A série tinha um talento quase criminoso para encontrar emoção em situações comuns: uma conversa adiada, uma lembrança de infância, uma escolha difícil ou aquela frase que só faz sentido muitos anos depois.

Dan Fogelman, criador da produção, apostava sem vergonha no melodrama. Às vezes, a história sublinhava o sentimento, colocava uma música bonita e ainda acendia uma placa luminosa dizendo “prepare o lenço”. A sutileza nem sempre era o ponto forte, mas seria injusto fingir que isso não funcionava. Os Pearson sabiam apertar os botões emocionais, e o roteiro geralmente tinha conquistado nossa confiança antes de puxar a alavanca.

O segredo não era fazer tudo parecer realista o tempo inteiro. Era reconhecer algo familiar no meio do drama. Aquele impulso de evitar um assunto, o medo de decepcionar quem a gente ama, a sensação de que nunca estamos totalmente prontos para virar adultos. This Is Us transformava essas pequenas inquietações em histórias grandes sem perder de vista o que as tornava humanas.

Um elenco que se sente família

Claro que roteiro sentimental sem boas atuações pode virar uma coleção de cenas pedindo aplauso e lágrima. O elenco, felizmente, entregava mais do que isso. Milo Ventimiglia e Mandy Moore ajudavam a construir a base emocional da família, enquanto Sterling K. Brown dava ao Randall uma intensidade que podia ir da vulnerabilidade ao humor sem parecer que ele tinha trocado de personagem no intervalo.

Chrissy Metz e Justin Hartley também davam corpo às inseguranças e contradições de Kate e Kevin. Em vez de transformar os irmãos em arquétipos de “problema da família”, a série deixava que fossem pessoas difíceis, carinhosas, egoístas, generosas e, às vezes, tudo isso antes do intervalo comercial. Ron Cephas Jones, por sua vez, trazia uma presença marcante que ajudava a dar profundidade às relações entre gerações.

Esse trabalho de elenco fazia diferença especialmente nas mudanças de época. Os personagens envelheciam, acumulavam experiências e carregavam marcas, mas continuavam reconhecíveis. A família parecia existir fora da tela, e isso é um baita elogio para uma série que precisava convencer o público de que seus personagens eram parte de uma história contínua.

O legado dos Pearson

Exibida pela NBC, a série virou sucesso de audiência nos Estados Unidos e permaneceu entre as dez produções mais assistidas da televisão norte-americana durante suas quatro primeiras temporadas. Mas o que ficou para muita gente não foi uma estatística ou uma reviravolta específica. Foi a sensação de acompanhar uma família por tempo suficiente para reconhecer seus defeitos e ainda torcer por ela.

This Is Us também não precisa ser tratada como obra intocável. Há momentos em que a emoção vem com a delicadeza de um caminhão estacionando na sala. Só que existe um motivo para tanta gente ter aceitado o convite para chorar semana após semana: a série entendia que afeto não torna ninguém perfeito, e que amar uma família também significa atravessar seus desencontros.

Se bateu vontade de revisitar essa jornada, This Is Us está disponível no Prime Video, no Disney+ e no Globoplay, conforme as informações de distribuição fornecidas. Separe um episódio para começar e, por garantia, deixe os lenços por perto. Não é drama. É prevenção.

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