Vicentina Pede Desculpas já chegou com força total e, no bate papo, o diretor Gabriel Martins abriu o porquê dessa história cortar tão fundo.
- De onde nasceu a ideia dos 10 anos
- Por que a Rejane vira “sombra” em cena
- A cena do ônibus: engenharia, logística e caos controlado
- Belo Horizonte como personagem
- Brasil em festival: pressão boa ou treta
Antes de virar trailer de bolso na sua timeline, o filme precisa ser entendido no contexto: Marte Um colocou Gabriel Martins no radar, e agora Vicentina Pede Desculpas chega com a promessa de traduzir luto, responsabilidade e superação em uma história que acontece dentro do cotidiano de uma metrópole brasileira. Bora destrinchar o que ele contou ao Omelete.
De onde nasceu a ideia dos 10 anos
Em conversa, Gabriel Martins explicou que a semente do projeto vem de experiências bem pessoais. A primeira: a morte da avó quando ele tinha 12 anos. Segundo o diretor, foi o primeiro velório a que ele assistiu e isso moldou uma percepção sobre morte que carregou pela vida inteira.
A segunda camada veio com memórias de acidentes coletivos que marcaram a cabeça dele. Ele citou, por exemplo, o caso do acidente do voo da Germanwings, lembrado como um episódio de peso extremo. E também resgatou uma imagem do documentário Ônibus 174, onde a mãe do Sandro aparece no velório.
O mote, então, virou algo bem específico: falar do luto individual dentro de uma estrutura coletiva. No universo do filme, quando acontece um acidente em uma cidade grande, “tudo para”, e sobra aquela sensação de suspensão emocional e de responsabilidade que ecoa em quem fica.
Por que a Rejane vira “sombra” em cena
Se Marte Um já tinha uma assinatura humana, aqui a parceria com Rejane Faria ganha uma reviravolta. Gabriel conta que a Vicentina é possivelmente a personagem em que a atriz ficou mais distante da própria persona.
Ele descreveu a Rejane como uma pessoa solar, engraçada e vaidosa, enquanto a personagem pede o contrário: “desprover de qualquer tipo de vaidade” para virar alguém tomado por ausência, tempo perdido e cabeça que não funciona do jeito habitual.
O resultado, no olhar do diretor, é impressionante porque a atriz consegue representar o vazio. Ele chega a comentar que viu a personagem “nascer” em cena, e que isso continuou mexendo com ele até depois das etapas de montagem, quando ele passou parte da mão no filme.
A cena do ônibus: engenharia, logística e caos controlado
Uma das imagens mais chamativas de Vicentina Pede Desculpas é a sequência do acidente do ônibus. E não, não é só efeito “bonitinho” para enganar o olho. Segundo Gabriel, a escolha foi fazer a cena de maneira prática, com execução real.
A produção exigiu fechar via e lidar com segurança em Belo Horizonte, já que uma parte da pista passa por um viaduto embaixo. Foi necessário envolver engenheiros para analisar onde o ônibus poderia cair. Depois disso, a execução ficou nas mãos de uma equipe de efeitistas e departamentos inteiros.
Ou seja, foi uma gincana gigante com prefeitura e organizações cabíveis, cruzando arte, fotografia e até composite, mas com um objetivo claro: não depender apenas da pós-produção para dar “peso” e organicidade ao momento.
Aliás, quem curte detalhes pode ver como a sequência foi registrada em vídeo no site do Omelete, incluindo a cena do ônibus destruído em Vicentina Pede Desculpas.
Belo Horizonte como personagem
Outro ponto que Gabriel reforça é que o filme não usa a cidade como “cenário de fundo”. Ele tem interesse em retratar a geografia e as diferenças visuais de Belo Horizonte, além de reconhecer que a própria história dele também passa por Contagem e pela região metropolitana.
O diretor descreve como cresceu acompanhando o processo de formação urbana, desde áreas com lotes vagos até bairros cheios de vida. Para ele, essa diversidade vira matéria-prima para contar histórias: montanhas, percursos longos de ônibus, vida entre periferia e centro, e aquele ritmo urbano que só quem anda a pé no meio da cidade entende.
Em resumo: a cidade aparece como personagem porque ela tem textura emocional e estética. Não é “uma BH genérica”. É uma BH com mapa afetivo.
Brasil em festival: pressão boa ou treta
Com Vicentina Pede Desculpas em festivais internacionais, Gabriel fala de orgulho, mas também de como é difícil entrar nessas vitrines. Ele menciona presença em eventos como Toronto (TIFF) e San Sebastián e reforça que esse tipo de espaço ajuda a manter o cinema brasileiro em evidência.
E tem um recado bem alinhado com a vibe nerd-coração: ele não se sente como um artista isolado. A ideia é que, ao representar o Brasil, ele carrega junto a cinematografia do país. É quase como se cada filme fosse uma “missão secundária” que, no final, alimenta a quest principal do cinema brasileiro ser lembrado.
Se você quiser um mapa rápido de como funcionam os festivais citados, dá uma passada no contexto do TIFF para entender por que Toronto costuma pesar tanto nas escolhas do mercado e da crítica.
Você acha que “luto coletivo” é a fórmula do novo cinema brasileiro, ou isso vai ser só mais uma aposta premiada?
Com Gabriel Martins e Rejane Faria encarando temas difíceis sem virar panfleto, Vicentina Pede Desculpas pode ser aquela história que o público sente mesmo antes de entender. Agora me diz: você vai assistir para chorar ou para discutir depois?
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