Walter Koenig: o legado de Chekov além da ponte

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Walter Koenig, o eterno Pavel Chekov de Star Trek, morreu aos 90 anos e deixa uma marca que vai muito além da ponte da Enterprise.

O navegador que chegou na segunda temporada

Koenig morreu em casa, em North Hollywood, Los Angeles. A informação foi confirmada pelo agente do ator, Zachery McGinnis. Para milhões de fãs, porém, a notícia também significa se despedir de um rosto que ajudou a fazer da tripulação da USS Enterprise uma família de verdade.

O ator entrou em Star Trek no começo da segunda temporada, em 1967, como Pavel Chekov, o jovem navegador russo da nave. Ao longo da carreira, participou de 36 episódios da série original e de sete filmes da franquia. Não é pouca coisa para alguém que chegou depois do primeiro contato do público com Kirk, Spock e companhia.

Chekov tinha energia, entusiasmo e aquele penteado que parecia ter saído diretamente de uma foto promocional dos Monkees. A inspiração era mesmo Davy Jones, integrante da banda que fazia sucesso entre os adolescentes da época. Uma escolha bem calculada para dar à série um rosto mais jovem, mas que acabou se tornando parte do charme do personagem.

Um Chekov no meio da Guerra Fria

A escalação também carregava uma ideia maior. Em plena Guerra Fria, um oficial russo servia ao lado de americanos numa missão de exploração espacial. Hoje pode parecer simples, mas Star Trek estava imaginando um futuro em que antigas rivalidades não impediriam a humanidade de trabalhar junta. A Enterprise não resolvia todos os problemas do mundo, claro, mas pelo menos começava a conversa.

Koenig não entrou na série como fã instantâneo. Antes de fazer parte do elenco, evitava assisti-la porque achava artificiais algumas das rochas usadas numa cena ao ar livre. E, mesmo depois de se juntar à produção, não poupava os efeitos especiais de críticas. Essa sinceridade combina com uma franquia que sempre foi mais interessante quando a ambição das ideias era maior que o orçamento disponível.

Um episódio que ele gostava especialmente era “Spectre of the Gun”, de 1968. Na história, alienígenas colocam a tripulação numa encenação de duelo do Velho Oeste. Chekov é atingido por um tiro de Wyatt Earp, mesmo que tudo seja uma ilusão. Para um personagem que passaria décadas associado a aventuras espaciais, morrer num duelo imaginário de faroeste é uma daquelas esquisitices deliciosas que só Star Trek entrega.

Quando a ficção científica virou trabalho

Nascido em Chicago, em 14 de setembro de 1936, Walter Marvin Koenig era filho de imigrantes judeus russos vindos da Lituânia. Começou a estudar medicina, mudou de rumo e se formou em psicologia na UCLA. A atuação apareceu depois, a partir de experiências no teatro. Em uma entrevista, ele descreveu aquele período como uma fase em que não sabia exatamente o que fazer da vida. Às vezes, até quem acaba numa nave estelar começa sem mapa.

Depois de estudar atuação em Nova York, Koenig trabalhou em séries como Mr. Novak e The Alfred Hitchcock Hour. Também participou de The Lieutenant, produção criada por Gene Roddenberry. Foi ali que o criador de Star Trek o conheceu e, mais tarde, lembrou dele ao escalar Chekov.

Quando a série original terminou, a carreira não virou uma viagem tranquila em velocidade de dobra. Koenig enfrentou dificuldades financeiras e passou a escrever roteiros para pagar as contas. Entre os trabalhos, escreveu um episódio de Star Trek: The Animated Series. Nos anos 1990, voltou à ficção científica em Babylon 5, interpretando Alfred Bester, um policial telepata manipulador que apareceu em 12 episódios.

O legado que segue em órbita

Entre os filmes de Star Trek, Koenig tinha carinho especial por Star Trek IV: A Volta para Casa, de 1986. A trama leva os personagens ao passado para salvar baleias e evitar uma catástrofe na Terra. A aventura é divertida, mas também mostra bem a vocação da franquia para usar uma viagem espacial como desculpa para falar de questões do nosso próprio planeta. Baleias, crise ambiental e uma tripulação tentando consertar o futuro: ainda soa familiar.

Koenig também valorizava os fãs, os Trekkies, e os descreveu como pessoas ligadas à humanidade, à justiça, à política, à imaginação e, claro, a monstros. É uma definição que tem a cara de Star Trek: gente capaz de discutir o destino da sociedade e, na mesma conversa, debater uma criatura alienígena com maquiagem de borracha.

Ele deixa a filha, Danielle Koenig, e um neto. Sua esposa, a atriz Judy Levitt, morreu em 2022. Para quem cresceu acompanhando a Enterprise, Chekov continuará sendo aquele oficial que ajudava a tripulação a navegar por galáxias e confusões. E, para uma franquia que sempre olhou para o futuro, talvez essa seja a despedida mais adequada: a viagem continua, e a marca de Walter Koenig segue a bordo.

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