Yu-Gi-Oh! quase perdeu espaço na TV japonesa, mas uma ameaça envolvendo Dragon Ball mudou o rumo da história.
- O anime que não engrenou
- A mangá tinha outra história
- O trunfo chamado Dragon Ball
- A virada que virou fenômeno
O anime que não engrenou
É difícil imaginar hoje, quando Yu-Gi-Oh! é praticamente sinônimo de duelo de cartas, monstros absurdos e gente gritando o nome das jogadas. Mas a primeira adaptação animada, lançada em 1998, não conquistou a televisão japonesa como se esperava. A série não teve o desempenho necessário para garantir uma continuação tranquila.
A situação era curiosa: o mangá fazia sucesso entre os leitores da Weekly Shonen Jump, enquanto o anime não conseguia transformar essa popularidade em audiência. Em outras palavras, o público já estava comprando a ideia de Yu-Gi-Oh!, mas a TV ainda não tinha sido convencida. E, como bem sabemos, uma franquia pode ter fãs apaixonados e mesmo assim esbarrar na planilha de quem decide o que vai ao ar.
Yoshiro Kataoka, produtor da animação, contou que a série esteve perto de parar por ali. A Toei Animation não demonstrava interesse em produzir novos episódios, e a TV Asahi também não parecia disposta a encomendar mais. Para uma obra que ainda tinha bastante combustível no mangá, era um baita balde de água fria.
A mangá tinha outra história
Quem não queria aceitar um fim tão cedo era Kazuhiko Torishima, então editor-chefe da Weekly Shonen Jump. O sucesso da publicação dava motivos para insistir: havia uma base de leitores forte e espaço para levar a marca a mais gente. Cancelar a adaptação naquele momento seria como abandonar uma partida antes de descobrir se o baralho ainda tinha uma carta boa na manga.
Só que a questão não era simplesmente convencer alguém de que Yu-Gi-Oh! merecia continuar. Havia contratos, direitos de transmissão e interesses de empresas diferentes no meio do caminho. A TV Asahi detinha direitos relacionados aos primeiros 27 episódios e aos seguintes por mais de dois anos, mas não mostrava vontade de comprar novos capítulos. Mudar a exibição para a TV Tokyo também não era uma solução simples.
Quando a conversa chegou à Toei, a resposta também foi negativa. A produção de mais episódios parecia cada vez menos provável, mesmo com o mangá em alta. É aquela parte nada glamourosa dos bastidores: às vezes, o futuro de uma série não depende de uma batalha épica, mas de negociações que parecem duelo de cartas sem fim.
O trunfo chamado Dragon Ball
Foi aí que Torishima puxou uma carta que ninguém esperava: Dragon Ball. Segundo o relato, ele usou o peso dos direitos da franquia para pressionar a Toei Animation. A ameaça era retirar da empresa os direitos de Dragon Ball para cinema e televisão caso ela não aceitasse continuar Yu-Gi-Oh!.
Não foi uma comparação entre as duas histórias nem uma tentativa de dizer que uma série era melhor que a outra. Foi uma negociação de bastidores usando propriedades da Shueisha para destravar um impasse. E convenhamos: poucas cartas têm mais poder de intimidação do que a possibilidade de perder acesso a uma das maiores marcas da cultura pop japonesa.
Torishima também trabalhou para que a TV Asahi não bloqueasse o caminho da transmissão. A disputa envolvia diferentes empresas, mas a insistência do editor ajudou a abrir espaço para que novos episódios fossem produzidos e exibidos. Nada de Exodia, portanto. O golpe decisivo foi feito com direitos e poder de negociação.
A virada que virou fenômeno
Com o impasse superado, a continuação de Yu-Gi-Oh! saiu do papel e acabou se tornando um sucesso. A série seguinte ajudou a transformar a obra em um fenômeno global, com cartas, jogos e personagens que marcaram uma geração. É um daqueles casos em que a história da franquia poderia ter tomado outro rumo por uma decisão corporativa tomada nos bastidores.
O episódio também mostra como o sucesso de uma obra nem sempre é uma linha reta. O mangá podia estar em alta, mas isso não garantia que a adaptação teria vida longa. Foi preciso alguém enxergar potencial, insistir na negociação e, aparentemente, jogar Dragon Ball na mesa como trunfo.
Para quem cresceu tentando invocar monstros e discutir regras com os amigos, dá até um certo alívio saber que a continuidade da série dependeu de uma jogada tão improvável. Yu-Gi-Oh! quase ficou pelo caminho, mas escapou do cancelamento graças a uma combinação de persistência editorial e uma ameaça poderosa. No mundo dos animes, às vezes o duelo mais importante acontece longe da arena.
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