Cara-de-Barro terá uma Gotham criada sob medida: sombria, opressora e sem amarras criativas impostas pela produção.
- Uma cidade que sufoca
- Nova York como inspiração
- Liberdade para moldar a história
- O que isso pode significar para o filme
Uma cidade que sufoca
Gotham já foi retratada de todo jeito: gótica, futurista, realista, quase uma personagem de desenho animado. Em Cara-de-Barro, a proposta de James Watkins é fazer a cidade parecer grande demais para quem tenta sobreviver nela. E, convenhamos, para um filme de terror sobre transformação e perda de identidade, esse tipo de ambiente pode render mais do que uma coleção de becos com névoa.
Em entrevista ao IndieWire, o diretor contou que não recebeu uma lista de regras dizendo como Gotham deveria ser. A equipe pôde desenvolver uma versão própria, pensada para combinar com a história de Matt Hagen, o ator que acaba transformado no vilão conhecido como Cara-de-Barro.
A ideia é uma metrópole opressora e avassaladora, daquelas que parecem esmagar seus habitantes. Não é só cenário bonito para o Batman cruzar os telhados. Aqui, a cidade pode ajudar a construir a sensação de que Hagen está perdendo o controle da própria vida, antes mesmo de o horror físico tomar conta.
Nova York como inspiração
Para encontrar a cara dessa Gotham, Watkins e o designer de produção James Price olharam para fotografias de Nova York entre as décadas de 1970 e 1990. A inspiração deve aparecer na iluminação, nos letreiros de neon e numa atmosfera urbana que prefere a sujeira poética ao brilho de cartão-postal.
É uma escolha que conversa bem com o horror corporal. Uma cidade polida demais provavelmente deixaria a história com cara de vitrine, enquanto uma Gotham marcada pelo desgaste pode fazer cada rua parecer parte do pesadelo. Pense menos em turismo e mais naquela sensação de voltar tarde para casa e achar que até o poste está te julgando.
James Price, que trabalhou em Pobres Criaturas e venceu um Oscar, participa da criação visual. A combinação entre a experiência do designer e as referências históricas pode dar ao filme uma identidade própria, sem precisar copiar à risca as versões que já vimos nos quadrinhos e no cinema.
Liberdade para moldar a história
O ponto mais interessante do relato de Watkins é justamente a ausência de imposições. Em adaptações de personagens tão conhecidos, existe sempre o risco de a produção ficar presa a uma cartilha visual: precisa ter tal prédio, tal paleta, tal rua reconhecível. O diretor afirma que a equipe apresentou sua proposta e recebeu entusiasmo para seguir adiante.
Isso não significa que o filme esteja desconectado do universo do Batman. Significa que Gotham pode ser reinterpretada a partir da perspectiva de uma história específica. É uma diferença importante: em vez de encaixar o Cara-de-Barro numa cidade pronta, a produção parece construir a cidade para refletir o drama dele.
Essa liberdade também pode ajudar o longa a não parecer apenas mais um capítulo de uma franquia. O personagem tem uma trajetória trágica e um lado grotesco que combina com o horror; uma Gotham menos familiar pode reforçar esse estranhamento, em vez de puxar a narrativa para a aventura tradicional de super-herói.
O que isso pode significar para o filme
O filme acompanha Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um gângster. Sem muitas opções, ele procura uma cientista vivida por Naomi Ackie, que usa métodos questionáveis para tentar restaurar sua aparência. O tratamento funciona, mas cobra um preço monstruoso.
Com Mike Flanagan responsável pelo roteiro e Watkins na direção, a expectativa é que a transformação de Hagen seja mais do que uma desculpa para mostrar efeitos visuais. A própria cidade pode ampliar o isolamento do personagem e tornar sua queda ainda mais cruel. Se Gotham realmente parecer uma máquina que engole gente, o visual estará trabalhando junto com a história, não só decorando a tela.
Cara-de-Barro chega aos cinemas brasileiros em 22 de outubro. A nova Gotham ainda precisa se provar na tela, claro, mas a liberdade criativa e as referências urbanas escolhidas já apontam para uma abordagem com personalidade. E, para um personagem que literalmente perde a forma, ter uma cidade que também parece deformada é um começo bem promissor.
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