Digger: por que Villeneuve chamou o filme de comédia furiosa

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Digger virou assunto de novo: Denis Villeneuve elogiou o filme de Iñárritu e o definiu como uma “comédia furiosa”.

O elogio de Villeneuve

Durante uma conversa com Alejandro González Iñárritu organizada pelo Sindicato dos Diretores de Hollywood, Villeneuve não economizou nos elogios ao longa. O diretor de Duna descreveu Digger como uma aventura, uma comédia tomada pela fúria e, acima de tudo, um espelho importante.

A escolha de palavras diz bastante. Não é exatamente a descrição que a gente espera de uma comédia estrelada por Tom Cruise, muito menos de um filme que coloca um magnata do petróleo no centro da confusão. Villeneuve também destacou a linguagem própria da obra, os efeitos práticos e a disposição de Iñárritu para assumir riscos artísticos.

Para ele, o filme é um sucesso total. É um aval de peso, claro, mas não uma tentativa de fingir que o desempenho comercial foi diferente do que foi. São duas conversas distintas: o que a obra tenta fazer e quantas pessoas compraram ingresso para vê-la.

Um filme que divide

Digger tem encontrado defensores entre outros cineastas, mesmo com recepção crítica mista. Esse apoio não apaga as críticas, mas mostra que o longa parece provocar reações fortes. E, convenhamos, uma obra que deixa todo mundo indiferente raramente vira assunto por muito tempo.

Iñárritu tem fama de buscar projetos exigentes, tanto para quem está diante da câmera quanto para quem assiste. Aqui, a aposta parece ser misturar sátira, desastre ambiental e comédia num mesmo pacote. Se a combinação funciona para todo mundo? Pelo visto, não. Mas a defesa de Villeneuve sugere que há uma intenção clara por trás dessa mistura, mesmo que ela não seja exatamente confortável.

É aí que a palavra “furiosa” ganha força. A comédia não estaria ali só para aliviar a tensão, mas para deixar a crítica mais afiada. A risada pode vir acompanhada daquele desconforto de perceber que o absurdo na tela não está tão longe das notícias do mundo real.

A história por trás da perfuração

Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo envelhecido cuja atividade de perfuração desencadeia um desastre ecológico. O ator também produziu o filme, que reúne nomes como Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Jesse Plemons, Michael Stuhlbarg e Emma D’Arcy.

A premissa dá espaço para uma sátira sobre poder, riqueza e o preço de tratar o planeta como se fosse um terreno sem limite de exploração. Cruise, conhecido por protagonistas que resolvem problemas correndo, pilotando ou saltando de lugares muito altos, aparece aqui num papel ligado a um tipo bem diferente de perigo: aquele que cresce enquanto alguém insiste que está tudo sob controle.

Essa mudança de registro pode ser parte do que torna o projeto tão curioso. Não é só mais uma missão impossível com outro nome. É uma aposta de elenco e tom que coloca uma estrela de ação numa história sobre consequências ambientais e responsabilidade.

O tamanho do desafio

O filme também enfrenta uma barreira bem menos artística: a conta do estúdio. As estimativas citadas apontam que Digger deve encerrar sua passagem pelos cinemas com menos de US$ 50 milhões arrecadados no mundo. Já o custo de produção teria ficado em torno de US$ 170 milhões, e a marca necessária para evitar prejuízo seria próxima de US$ 350 milhões.

Esses números ajudam a explicar por que o longa vem sendo tratado como fracasso de bilheteria. Produções desse porte precisam de um público enorme para se pagar, e o valor da produção não é a única despesa envolvida. Ainda assim, desempenho comercial e avaliação artística não são a mesma régua. Um filme pode falhar nas salas e continuar rendendo debates, defesas e interpretações.

Vale mais que a bilheteria?

Depois da estreia, Cruise também demonstrou orgulho pelo projeto e agradeceu ao elenco e à equipe. É uma reação compreensível: fazer um filme ambicioso envolve anos de trabalho, e o resultado não deixa de existir só porque o público não apareceu em massa.

O elogio de Villeneuve não muda o placar financeiro de Digger, mas ajuda a iluminar o que pode ter passado despercebido na discussão sobre números. Para alguns realizadores, o longa é uma obra arriscada, visualmente singular e interessada em cutucar feridas reais. Para outros espectadores, essa mesma mistura pode não funcionar.

No fim, a curiosidade está justamente nesse contraste: um filme que custa caro, arrecada pouco e ainda assim recebe declarações tão entusiasmadas de colegas de profissão. Se a “comédia furiosa” de Iñárritu vai conquistar mais gente com o tempo, só o tempo dirá. Mas já conseguiu algo que nem todo fracasso de bilheteria alcança: continuar sendo assunto.

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