I Love Boosters: Boots Riley vê poder na classe trabalhadora

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I Love Boosters usa uma história de ladras de loja para falar de luta de classes, organização e poder dos trabalhadores.

Uma comédia com ideias na mira

Boots Riley não parece muito interessado em fazer filme para deixar a política do lado de fora da sala. Em I Love Boosters, a trama acompanha um grupo de ladras de loja que entra em conflito com uma estilista poderosa. A premissa pode até soar como ponto de partida para uma comédia de golpe, mas Riley enxerga nela uma chance de colocar classe, trabalho e desigualdade bem no centro da conversa.

Durante sua passagem pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o diretor falou sobre o que espera que o público tire do filme. A resposta não foi um discurso abstrato sobre esperança: Riley quer que as pessoas pensem em como podem mudar as condições que criticam. Para ele, identificar um problema é só metade da missão. A pergunta que interessa é: que força existe nas mãos de quem trabalha?

É aí que o filme ganha uma camada que vai além da premissa de assalto e provocação. Riley tenta apresentar ideias políticas sem transformar a sessão numa palestra com pipoca. E, convenhamos, quando um filme consegue divertir enquanto cutuca estruturas de poder, já está fazendo mais do que muito drama sisudo que confunde seriedade com ficar duas horas de cara fechada.

Onde está o poder?

Na visão de Riley, trabalhadores organizados têm uma ferramenta decisiva: podem interromper o próprio trabalho. Se muita gente para ao mesmo tempo, uma indústria inteira pode sentir o impacto. Não é uma ideia de poder como cargo, palanque ou microfone, mas como posição dentro da economia. Uma engrenagem só gira porque existe gente fazendo o trabalho que a mantém em movimento.

O cineasta defende que essa capacidade pode pressionar empresas e governos com mais força do que simplesmente demonstrar indignação. Isso não significa que protestos de rua sejam inúteis ou que toda mobilização precise seguir uma fórmula única. O ponto dele é outro: para Riley, mostrar que se está do lado certo não basta se não houver organização capaz de produzir consequências.

Esse argumento também explica o que ele chama de otimismo realista. Não é aquela esperança de que tudo vai melhorar porque o universo finalmente resolveu entregar um presente. É acreditar que mudanças são possíveis, mas exigem esforço coletivo, estratégia e gente disposta a se organizar. Menos final feliz automático, mais trabalho de equipe. Até os Chapéus de Palha sabem que ninguém derruba um império sozinho.

O paralelo com o Brasil

Ao falar com o Omelete, Riley relacionou essa visão ao cenário brasileiro e à eleição vencida por Luiz Inácio Lula da Silva. Ele citou políticas que o presidente tenta implementar e sugeriu que uma classe trabalhadora organizada poderia conquistar apoio e pressionar por mudanças. Como exemplo, mencionou a possibilidade de uma paralisação na indústria da carne e nos transportes ligados a ela.

É importante notar que Riley fez esse comentário como alguém de fora do país. Ele próprio reconheceu que não conhece o Brasil o bastante para oferecer uma leitura definitiva. Ainda assim, vê um problema comum em diferentes lugares: muita gente está cansada do jeito como as coisas funcionam e procura caminhos para transformá-las.

A fala não é um manual pronto para a política brasileira, e seria estranho tratar uma entrevista como se fosse uma análise completa do país. O que ela oferece é uma provocação: quando trabalhadores conseguem agir coletivamente, as reivindicações deixam de depender apenas da boa vontade de quem está no poder. É uma ideia simples de entender, embora nada simples de colocar em prática.

Do protesto à organização

Riley também lembrou os protestos contra a Guerra do Iraque nos Estados Unidos. Na época, milhões de pessoas foram às ruas, mas a mobilização não conseguiu impedir a guerra. Para ele, esse resultado mostra que reunir multidões e erguer a voz nem sempre basta: é preciso pensar em onde está a alavanca capaz de alterar os interesses de quem decide.

Não é uma defesa de ficar em casa, muito menos um convite a desprezar manifestações. É uma crítica à ideia de que visibilidade, por si só, produz mudança. Protestar pode chamar atenção, criar pressão e aproximar pessoas; a questão é como transformar essa energia em organização duradoura. Sem isso, o barulho corre o risco de virar apenas mais um momento intenso no calendário.

I Love Boosters foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem estreia nos cinemas brasileiros marcada para 19 de novembro, com distribuição da Universal Pictures. Se a promessa de Riley se cumprir, o filme vai entregar risadas e também uma pergunta que continua ecoando depois dos créditos: além de reclamar do sistema, como a gente se organiza para mexer nele?

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