Marcelo Tas narra Ziraldo e segura o próprio ego

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Marcelo Tas narra Ziraldo em audiolivros e encara um desafio que vai além da interpretação: deixar a própria personalidade em segundo plano.

Ziraldo ainda conversa com outras gerações

Dar voz a um clássico não é só apertar o botão de gravar e caprichar na entonação. É descobrir como aquelas palavras chegam a quem nunca abriu o livro. Marcelo Tas passou por esse exercício ao narrar obras de Ziraldo para uma nova coleção de audiolivros da Audible, que reúne 28 títulos do autor. Entre eles está O Menino Maluquinho, uma daquelas histórias que atravessam gerações sem precisar de atualização de software.

Em entrevista ao Omelete, Tas comentou justamente sobre essa permanência. Ele já tinha observado que a televisão costuma ter memória curta, mas vê na trajetória de Ziraldo um exemplo de como a ousadia artística pode resistir ao tempo. As histórias continuam vivas porque não tratam a infância como um território menor ou simplório.

Ao revisitar passagens sobre namoro, princesas e dragões, o apresentador percebeu também o quanto o contexto social mudou. Ziraldo criou em uma época mais machista, mas, para Tas, a abordagem mantém uma mistura interessante de provocação, afeto e respeito pela imaginação infantil. A criança pode acreditar em dragões e, ao mesmo tempo, levar muito a sério o próprio mundo. Adulto que nunca esqueceu disso já entendeu metade da graça.

A voz a serviço da obra

Tas não é exatamente conhecido por desaparecer quando pega um microfone. Entre o repórter Ernesto Varela, o CQC e o Provoca, construiu uma presença marcante, opinativa e cheia de personalidade. Por isso, narrar Ziraldo trouxe uma questão especial: como colocar essa experiência a favor de uma obra alheia sem transformar o texto em “Marcelo Tas apresenta”?

A resposta, segundo ele, passa por abrir mão do ego e da autoria. Não é uma questão de apagar o narrador, mas de entender qual é o papel dele: conduzir a história sem disputar o centro do palco com quem a escreveu. É uma diferença sutil, mas decisiva. Uma voz pode iluminar uma frase ou chamar atenção demais para si mesma. Nesse caso, o trabalho é encontrar o ponto em que a interpretação ajuda o texto a respirar.

Essa ideia vale para qualquer adaptação, aliás. Quem já viu um personagem querido ganhar uma versão que parece mais interessada em mostrar o ator do que em contar a história sabe como o equilíbrio faz diferença. No audiolivro, Tas buscou preservar o jeito de Ziraldo, não impor uma nova assinatura em cima dele.

Quatro horas de gravação sem perder o fôlego

O cuidado apareceu também na mesa de gravação. Tas contou que a equipe manteve o texto original sem alterar sequer artigos. A escolha faz sentido: a escrita de Ziraldo parece coloquial, como uma conversa, mas essa naturalidade não significa que seja simples de reproduzir. Há profundidade ali, só que sem aquela solenidade que às vezes faz a literatura parecer uma prova surpresa.

As sessões podiam durar quatro horas seguidas. Mesmo com o esforço e as mudanças na respiração, Tas disse que saía menos cansado do que esperava, atribuindo essa sensação à entrega completa ao material. É um detalhe que combina com a proposta do formato: o narrador empresta a voz, e o texto ganha outra forma de existir, sem deixar de ser o texto de Ziraldo.

Em vez de tratar o audiolivro como uma leitura mecânica, a equipe tentou preservar o ritmo fluido da escrita. O resultado depende justamente desse trabalho invisível: pausas, respiração e intenção precisam parecer naturais, embora cada escolha seja calculada. Quando funciona, a gente só acompanha a história. E esse talvez seja o melhor sinal de que o narrador soube sair da frente.

As perguntas simples de Ernesto Varela

Para fechar a conversa, Tas imaginou o que Ernesto Varela perguntaria a uma figura da filosofia. A escolha foi Platão, na Grécia, e a pergunta seria sobre a verdade. Nada de introdução pomposa ou questão feita para impressionar a banca: o Varela, explicou o apresentador, prefere perguntas diretas, do tipo “o que é a verdade?” ou “qual é a sua próxima jogada?”.

A brincadeira conversa com o próprio trabalho de narrar Ziraldo. Tanto a curiosidade de uma criança quanto uma boa pergunta de Varela parecem simples à primeira vista, mas abrem espaço para respostas enormes. E talvez seja por isso que essas histórias continuam funcionando: elas não subestimam quem está ouvindo.

No fim, Tas não precisava imitar Ziraldo nem competir com a lembrança que cada leitor guarda de O Menino Maluquinho. Seu desafio era outro: encontrar uma voz capaz de acompanhar a obra e deixar que ela conduzisse a viagem. Para um comunicador acostumado a ocupar o microfone, saber quando não ocupar o centro é uma bela demonstração de escuta.

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