Shibal: [ENTENDA] o caos de SP no curta de Gramado

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Shibal levou Gramado na raça e transforma o caos de São Paulo em tragicomédia filmada em 16mm. E sim, tem burocracia, tem comunidade e tem aquele “meu Deus, como isso acontece?”.

Por que “Shibal” grita mais do que parece

Quando você pensa em curta vencedor em festival, costuma esperar algo “bonitinho” e controlado. Shibal (씨발) não joga esse jogo. O filme, dirigido por João Rubio Rubinato, usa um pretexto simples para mostrar uma coisa gigantesca: a cidade grande como máquina de atrito. A missão do protagonista parece um detalhe, mas o roteiro faz você sentir na pele cada tropeço e cada procedimento que vira parede.

O resultado tem cara de comédia, mas com coração de drama. É um tipo de narrativa que lembra aquela sensação de quando você acha que entendeu a lógica de São Paulo e, no segundo seguinte, ela muda as regras. E aí, pronto: você está dentro do caos.

Tom e o dia que não acabaria

O enredo acompanha um dia na vida de Tom, gravurista falido interpretado por Tavinho Teixeira. A tarefa é curta: entregar uma placa para um restaurante coreano chamado Shibal. Só que entregar placa em São Paulo é tipo fazer quest secundária e cair direto numa raid. Contratempos surgem em cascata, e a trama vai costurando absurdo com observação social.

No elenco também estão Bianca Comparato, Marcelo Médici, Suk Kim, Paulo Goya, Boni Tao e Stephanie Kim. A presença do grupo ajuda a dar textura ao que o curta quer: não é só uma “história esquisita”, é um recorte da cidade em funcionamento, com pessoas reais e conflitos que parecem pequenos, mas batem forte.

Gramado, 16mm e o Bom Retiro como personagem

O curta foi rodado em 16mm no bairro do Bom Retiro e venceu a Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do Festival de Cinema de Gramado em 2026. E aqui tem um detalhe nerd que importa: 16mm não perdoa. A imagem tem textura, imperfeição e presença. Ou seja, combina demais com o tema. É caos com fotografia que gruda na retina.

O próprio Rubinato trata São Paulo como algo que “não termina”. O Bom Retiro entra como personagem porque carrega comunidades, idiomas, rotinas e micro-regras. É aquela São Paulo em que você não passa por um lugar: você atravessa um universo. E quando o filme acerta nesse ponto, a cidade vira palco, e o protagonista vira espectador forçado da própria sobrevivência.

Kafka, Beckett e a burocracia que dá tilt

Se tem referência literária no meio, a trama fica ainda mais afiada. Kafka aparece como inspiração, e a comparação faz sentido: o curta capta aquele tipo de absurdo em que você não é “punido” por um vilão, você é sufocado por procedimentos. É como se a cidade dissesse: “boa sorte interpretando as etapas”.

Rubinato e o elenco também evocam outros nomes do caos formal, como Beckett e textos que dialogam com a experiência do sujeito perdido entre sistemas. Em termos práticos, o filme mostra que escapar de golpes e burocracias exige uma vigilância quase administrativa. É tragicômico porque todo mundo reconhece, mas ninguém quer admitir que reconhece.

Para quem quer contextualizar essa vibe de fotografia e linguagem, o histórico do filme de 16mm ajuda a entender por que esse formato combina com cinema autoral e observacional.

O que você faria nessa São Paulo?

Em Shibal, Tom tenta cumprir uma tarefa simples e descobre que São Paulo tem planos próprios para você. Se aparecesse hoje uma missão parecida na sua vida, você desenrolava ou travava nos procedimentos? Porque, do jeito que o curta mostra, não é só sobre entregar uma placa. É sobre encarar um sistema que vive testando a sua paciência. E você, gamer da vida real: quanto de “vida” você aguentaria antes do game over?

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