S.S. Rajamouli e Netflix: amor, ódio e tela grande

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S.S. Rajamouli e Netflix têm uma relação complicada: o diretor ama a sala de cinema, mas sabe que o streaming levou RRR a públicos que talvez nunca o encontrassem.

O cinema é o templo de Rajamouli

Em conversa com o Omelete durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, S.S. Rajamouli resumiu sua relação com as plataformas em poucas palavras: amor e ódio. Não é pose de diretor saudosista. Para ele, a experiência coletiva da sala escura está no centro da própria maneira de criar.

Rajamouli contou que sua imaginação nasceu assistindo a filmes no cinema. Por isso, quando escreve e pensa em imagens, já visualiza uma tela enorme e uma plateia acompanhando cada cena. O cineasta descreve a sala como um templo e fazer filmes como uma espécie de religião. Pode soar grandioso, mas estamos falando do diretor de RRR: moderação nunca foi exatamente a marca registrada da obra.

Essa visão ajuda a entender por que a estreia de um filme direto no streaming pode ser frustrante para ele. Um longa como RRR: Revolta, Rebelião, Revolução, com ação em escala épica, números musicais e animais entrando em cena como se tivessem recebido treinamento de dublê, parece pedir uma tela gigante. No Brasil, a exibição na Mostra também marcou a primeira oportunidade de ver o filme em salas de cinema por aqui.

Como o streaming levou RRR mais longe

Mas a história não termina num discurso contra as plataformas. Rajamouli reconhece que a chegada de RRR à Netflix, inclusive no Brasil, foi decisiva para o filme atravessar fronteiras e ganhar espectadores em diferentes países. Sem o streaming, diz ele, muita gente daqui provavelmente nem teria conhecido a produção.

Aí está o lado curioso dessa relação: a plataforma que tira do diretor o controle sobre a primeira experiência de parte do público também ajuda a apresentar seu trabalho a quem não teria acesso fácil a ele. É um dilema bem real para o cinema atual. A sala oferece escala, som e reação coletiva; o streaming oferece alcance e conveniência. Fingir que um lado não tem valor seria simplificar demais.

O sucesso internacional de RRR mostra como as duas janelas podem se complementar. O filme conquistou novos públicos longe de sua estreia original, e a exibição brasileira na Mostra deu a alguns deles a chance de finalmente experimentar a aventura no formato que o diretor considera ideal. Não é uma disputa simples entre projetor e controle remoto.

A plateia também faz parte do filme

Quando revê RRR com espectadores, Rajamouli não fica necessariamente preso à tela. Depois de assistir ao longa tantas vezes em diferentes países, ele já sabe quais momentos costumam provocar reação. Então, em vez de acompanhar cada plano, observa o público e espera pelas risadas, pelos aplausos e pelos gritos.

“Naatu Naatu” é uma aposta segura. O mesmo vale para a sequência em que os protagonistas salvam uma criança e para a entrada dos animais. São cenas construídas para crescer diante de uma plateia, com energia de espetáculo e uma generosa dose de exagero. E, convenhamos, ver a sala inteira reagindo a um momento desses é bem diferente de assistir sozinho enquanto o aplicativo pergunta se você ainda está vendo.

O diretor também destacou o encerramento festivo do filme, com música e dança. Para ele, RRR funciona como uma celebração: o público termina feliz, batendo palmas e entrando no clima. Não é apenas uma questão de imagem maior. A reação compartilhada vira parte da experiência.

Qual é o cenário ideal?

Rajamouli não trata cinema e streaming como inimigos absolutos. O cenário dos sonhos, segundo ele, é que seus filmes passem primeiro pelas salas e também cheguem às plataformas. A diferença é que, se pudesse escolher a ordem, a tela grande viria antes. Para um diretor que concebe cada cena imaginando uma plateia, faz todo sentido.

Essa preferência não apaga o papel da Netflix na trajetória de RRR. Pelo contrário: o cineasta admite que a plataforma ajudou o filme a encontrar espectadores no Brasil e em outros lugares. O que ele lamenta é a experiência cinematográfica que parte desse público não teve na primeira vez, não a possibilidade de o filme chegar até essas pessoas.

No fim das contas, a posição de Rajamouli é menos contraditória do que parece. Ele quer que o público descubra seus filmes onde for possível, mas sonha que a primeira parada seja o cinema. E, depois de ver RRR transformar uma música, uma corrida de animais e uma sequência de ação em eventos coletivos, dá para entender por que ele chama a sala escura de templo.

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